Participando do I Seminário de Políticas Públicas para o Esporte e o Lazer, promovido pela UnB, como coordenador do Grupo de Trabalho de Esporte e Saúde Coletiva, a partir do trabalho apresentado por diversos alunos e professores, eescrevi o texto abaixo que deixo para críticas e sugestões.
Muito se tem discutido sobre o esporte. De instrumento único a vilão da educação física escolar, o esporte já enfrentou várias críticas, enormes oposições e inúmeros tratados. No entanto, por qualquer ângulo que se observe não há como negar a sua força como um dos principais componentes da cultura corporal de movimento. Sempre defendi que o culpado por esta tentativa de afastamento da educação física, principalmente a partir da década de 80, não era o esporte em si, mas do uso que se fez dele durante a época da ditadura militar em nosso país.
Apesar de tudo, o esporte sobrevive, cada vez com mais força, alavancado pela mídia e pelos fabricantes de produtos esportivos. Isso poderia até ser considerado positivo, não fossem os objetivos deturpados por formadores de opiniões despreparados e a exacerbação do consumismo.
Quando se fala do esporte, conceitualmente o definimos como uma prática corporal composta de regras e organizações definidas, praticadas de forma competitiva. No entanto esta prática que parece fechada a modificações, possui uma maleabilidade quando se transforma em jogos adaptados, em jogos pré-desportivos, e em brincadeiras infantis plenas de ludicidade. O esporte dá origem a inúmeras atividades que são absorvidas pela rua, pela escola e hoje em dia por atividades virtuais, através dos “vídeos games”.
Cabe ressaltar que, acima de tudo, o esporte deve ser visto prioritariamente como fonte de lazer espontâneo, e também, como parte integrante do processo educativo de qualquer pessoa que tenha oportunidade de praticá-lo. A oferta de oportunidade deve ser papel importante da escola por ser uma instituição por onde deve passar todo cidadão. Oferecer a oportunidade não significa especializar os alunos, mas, colocá-lo em contato com as diversas modalidades, ensinar-lhes os movimentos básicos que darão a condição de usar estes conhecimentos como instrumento de lazer e para os que se interessarem, o encaminhamento para o aprimoramento.
Não restam dúvidas que o esporte tem uma forma espontânea de ser aprendido e praticado. João Batista Freire coloca muito bem em seu livro “Pedagogia do Futebol” que existe uma “pedagogia da rua” e uma “pedagogia da escola”. Enumera virtudes e defeitos em cada uma das pedagogias citadas, entre elas cita a ludicidade e motivações incorporadas na “pedagogia da rua”, ao mesmo tempo em que ressalta a crueldade em que ela trata os menos hábeis. Aponta na “pedagogia da escola” a excessiva diretividade, mas ao mesmo tempo a obrigatoriedade da inclusão, da preocupação com as atitudes e valores que devem ser incorporados pelos praticantes.
No meu modo de ver, a pedagogia da rua enaltece o talento, a da escola deve privilegiar o método. A da rua enxerga a competição como uma exaltação ao mais hábil, a da escola deve tratá-la como um retrato momentâneo e compreensivo da capacidade individual e/ou coletiva.
O esporte não deve ser examinado apenas pela ótica da sua prática. Ele nos fornece um imenso manancial para reflexões sobre a realidade, sobre a sua (des?)organização, sobre os fatores positivos e negativos que podem estar inseridos nele, reflexos dos problemas e virtudes da história social contemporânea.
Em nosso país, verificamos a falta de políticas públicas para o esporte, decisões incoerentes e uma prática muitas vezes inconsistente nas escolas. No esporte de alto rendimento, um constante desvio de verbas nos altos escalões ligados ao esporte (ministérios, secretarias, confederações, federações, clubes, etc.) retrata uma sociedade em que o esporte tem sido vilipendiado tanto nos seus aspectos morais como financeiros.
Mas do que nunca se faz necessário, uma mudança radical na forma que o esporte tem sido percebido, tratado e dirigido. Isso só acontecerá a partir da conscientização da sociedade, da preparação de profissionais que realmente enxerguem de maneira responsável as possibilidades educativas do esporte, de estudos que apontem de forma clara métodos de atuação, não só nos aspectos motores, mas na compreensão do esporte como um bem cultural que não pode ser de forma nenhuma desprezado.
Não é suficiente preparar apenas professores para ministrarem aulas ligadas à prática esportiva, é necessário preparar pessoas para tratarem da gestão do esporte. Chega de aventureiros despreparados que se lançam no esporte, sabedores da sua repercussão social, para obterem ganhos políticos; chega de formadores de opiniões que usam a mídia para transmitir idéias distorcidas do que é uma competição esportiva; chega de “técnicos-boleiros” para inserir a criança no mundo esportivo; chega de entregarmos a direção do esporte nacional à ex-estrelas ou a políticos de ocasião.
O esporte merece respeito e estudos. Seminários, debates, conferências e pesquisas sobre o tema, são fundamentais para preparação de profissionais, o que, por conseqüência, ajudará a preservar o esporte como fonte e fruto de educação e lazer.